quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Leiam isto, porque eu escrevi e se não for lido perde o seu propósito de Vida!

Sentado algures numa esplanada começo a pensar...e penso, não sei bem no que penso, na maior parte do tempo estou a pensar que estou a pensar e de que em 1001 maneiras isso parece estiloso, quem sabe no que penso? Uma nova teoria fantástica, uma crítica entusiasta, ou se calhar pondero no raio da torneira que deixei aberta em casa.

E se alguém estiver a ler isso vai pensar, " ah porra, um texto pseudo-intelectual que reflecte no estado das coisas através de um ar bue introspectivo"! Não te preocupes rapaz, ou rapariga, aquele início foi para te assustar. Porque, não me interessa minimamente duas coisas, sendo a primeira :Tou-me barimbando para o que tás a pensar, se não queres ler o texto porque abriste este blog?? Porque continuas a ler esta cena em negrito?? Só porque está em negrito e pensas que esta parte é mais interessante? Segundo: Dói-me demasiado o dedo mindinho da mão esquerda para me armar em pseudo-intelectual, se bem que sou bom nisso e tenho uma vasta lista de pessoal inserido nesse clube, já abriu o grupo no hi5, go check it out!

E agora que não vou escrever em negrito, escrevo em ITÁLICO! Agora parece que vou escrever algo mais lírico e até podia... a verdade é que não tenho realmente nada de interessante a dizer...hmm... hoje disse olá a umas quantas pessoas, dado que 60% dela aborrecem-me. Ah já me esquecia!!! Coçei as costas.... e até me soube bem.

E agora, escrevendo em vermelho ( assim como quem vos manda à merda), vou dizer realmente algo de interessante e a razão porque vim escrever um post neste blog, coisa que, infelizmente, não fazia há muito. Vou dizer essa coisa interessante em tom de história, e começa assim:


"Não é que eu olhei para a esquerda e vi algo de degradante e estimulante ao mesmo tempo? Não é que eu olhei para aquilo e quando vi todos a pegarem nesse gelado quis experimentar o dito cujo? Não é que andei durante semanas com esse gelado na mão, sorrindo para todos os consumidores de gelados ( oh nem sabem, tem tantos sabores, agridoce, azedo, fora-de-prazo) e a querer frequentar todos os fóruns e spots dos consumidores de gelados. De seguida pensei: " Tenho o gelado na minha mão há muito tempo, já todos o lamberam uma vez, porque é que ainda não o lambi?". E foi isso que fiz, lambi o gelado...não gostei....voltei a lamber...ficou pior! Acabei por comer o gelado todo e deram-me outro, à borla!
Olhei para todos os consumidores de gelados à minha volta a devorarem mecanicamente os seus gelados, já nem lhe sentiam o sabor, acenavam-me e mandavam-me sms para me juntar a eles com este outro gelado. Eu fui! Comi outro gelado.

Era-me necessário comer gelados para me manter numa certa esfera. Uma esfera que nunca me pertenceu e a esfera que me pertence não coexiste com os gelados, é uma esfera oca de sentido neste spot. E o pior é que tive que ouvir várias conversas relacionadas com gelados... e eu não tenho o mínimo interesse nisso, nem da forma como tratam o gelado.. acho estúpida.
E depois pensei que, de facto, eu não gosto deste gelado...eu não sou consumidor de gelados, eu nunca comi gelados porque raio como agora? Porque estou no grupo dos que comem gelados? Porque vim para esta rua? Atiro o gelado que tinha na mão para o chão e logo nesse momento os outros consumidores de gelados apanham-no e dividem-no equitivamente. "

Vou voltar aos chocolates.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Judas Iscariot - The Cold Earth Slept Below...

Judas Iscariot - The Cold Earth Slept Below...

Introdução
Em 1995, a sigla USBM, a ser utilizada, seria uma vazia agregação alfabética sem qualquer consubstanciação musical. Não apenas enquanto ideia colectiva de hipotético movimento musical, mas também porque encontrar, no início dos anos 90, bandas norte-americanas a praticar Black Metal (sem influências exógenas demasiado evidentes, nomeadamente de Thrash e Death Metal) era uma tarefa exequível - desde os anos 80 existiam bandas pequenas com um som ainda mais sujo que Venom como N.M.E., por exemplo - mas extremamente complicada.

Há a famosa imagem de Varg Vikernes a usar uma t-shirt de Von no julgamento do homicídio de Euronymous e de facto esta era uma das poucas bandas a praticar este estilo, cujo contexto e origem, é demarcadamente europeu. No entanto, mesmo Von tinha um som ligeiramente diferente, muito mais ligado ligado à brutalidade e velocidade e menos à atmosfera (principal característica distintiva do Black Metal que se fazia na Europa).
Só mais tarde é que surgem bandas como Krieg (mais tarde e não surpreendentemente membros desta banda haveriam de tocar como músicos convidados em JI) e Black Funeral a praticarem um estilo próximo do ia sendo feito na Noruega. No entanto, tanto Krieg como Black Funeral só surgem em 1995 e 1993, respectivamente, isto é, um pouco mais tarde que JI que inicia as suas actividades em 1992.

Assim sendo, The Cold Earth Slept Below... surge como uma das primeiras demonstrações de (puro) BM norte-americano a ter alguma relevância na cena mundial. Fruto da insistência do fundador e único membro fixo da banda Andrew Jay Harris, mais conhecido pelo seu pseudónimo Akhenaten. À semelhança de grandes nomes do estilo, Judas Iscariot foi predominantemente uma "one-man band". O uso do pretérito deve-se ao facto de JI ter cessado as suas actividades em 2002... mais concretamente a 25 de Agosto desse mesmo ano. Neste caso o dia e mês são bastante importantes para perceber a ideologia por detrás do projecto: Judas Iscariot acabou 102 anos depois da morte do filósofo que mais influenciou o seu mentor, ou seja, Friedrich Nietzsche.

Indivíduo com formação académica na área da Sociologia, Harris sempre se pautou pela integridade que incutida ao projecto, quer a nível ideológico (com persistentes ataques niilistas às religiões organizadas sendo o Cristianismo o foco particular), quer a nível artístico. Exemplo disso é a declaração que explica o fim da banda após 10 anos em actividade.
The Cold Earth Slept Below... mostra o lado mais primitivo e frio da perseverante luta de Akhenaten contra a moral cristã através da sistemática desconstrução niilista aqui traduzida em ódio sonoro.



Alinhamento
01 - Damned Below Judas
02 - Wrath
03 - Babylon
04 - The Cold Earth Slept Below
05 - Midnight Frost
06 - Ye Blessed Creatures
07 - Reign
08 - Fidelity
09 - Nietzsche

Ano 1996

Editora Moribund Records

Faixa Favorita 04 - The Cold Earth Slept Below

Género Black Metal

País EUA

Banda
Akhenaten (Andrew Jay Harris) - Todos os Instrumentos e Voz


Review
Por motivos de honestidade analítica há que dizer logo no início e muito claramente que o Black Metal de Judas Iscariot não é exactamente o que poderíamos chamar de singular. Mesmo atendendo ao ano em que foi lançado, The Cold Earth Slept Below... já denota muitas influências do que outros nomes tinham feito antes.
Neste aspecto surge, de forma algo natural, a referência a Darkthrone. Em 1996 já tinham sido lançados trabalhos como o A Blaze In The Northern Sky e Transilvanian Hunger, e este trabalho de JI vai buscar vários elementos a esses dois marcos do Black Metal moderno.

Não obstante o primeiro álbum de estúdio de Judas Iscariot caminhar em terreno já conhecido, Akhenaten consegue fazer uma interpretação bastante interessante do que havia sido desbravado até então. Não havendo propriamente inovação a nível musical (nem é esse o objectivo de Harris), a unicidade de TCESB advém da atmosfera transmitida. O sentimento niilista é muito forte, não só devido ao conteúdo lírico ou à abordagem vocal, mas porque toda a obscuridade do álbum remete para uma ideia de profundo anti-conformismo para com o mundo envolvente. Se existem semelhanças musicais mais ou menos evidentes com nomes predecessores a JI (Darkthrone, por exemplo), a atmosfera criada é bastante única, quer pelo extremismo da mesma, quer pela forma como as variações (não sendo exactamente original, é um trabalho que varia bastante embora sempre dentro do espectro do Black Metal) vão mantendo sempre o mesmo nível de intensidade.

A música de Judas Iscariot (não somente neste álbum) reveste-se de uma complexidade conceptual que contrasta com a abordagem puramente musical que pode ser ouvida em The Cold Earth Slept Below que é substancialmente mais simples. Está claro de ver que a intenção de Akhenaten não era fazer um álbum tecnicamente complexo, pelo que a questão não se põe em termos de capacidade, mas é interessante olhá-la numa perspectiva contrastante que maximiza o efeito pretendido.
Abordando a produção do álbum é possível vislumbrar esta simbiose: o conteúdo filosófico inerente é na sua génese extremo, quer em complexidade quer em valores (ou se se preferir, na falta dos mesmos...) e a produção bastante minimalista e crua acentua esta mesma atmosfera, fazendo com que o trabalho seja fiel retratador a escrita aforística e poderosa de Nietzsche, a grande inspiração ideológica do projecto. O mundo das ideias (complexo) e o mundo musical (simples) unem-se sob o signo do extremismo da mensagem: a comunicação é cruamente poderosa mas a mensagem assume-se como ambiciosamente complexa.

A produção rude e (propositadamente) pouco "trabalhada" (ou trabalhada exactamente para parecer pouco cuidada...) não mascara algumas passagens mais turbulentas no que diz respeito a um elemento do álbum: a bateria. Se na maioria das vezes a repetição ajuda apenas a manter a atmosfera do álbum, quando se dão algumas passagens mais velozes ou há uma tentativa de imprimir outras dinâmicas, nota-se alguma falta de experiência e habilidade. Não sendo expectável (ou mesmo recomendável) um trabalho de grande perfeccionismo, algumas falhas notam-se um pouco mais do que o devido. Até neste caso (que não é positivo, diga-se claramente) a integridade musical de Harris é denotada, sendo que seria porventura mais "fácil" substituir a bateria real por uma qualquer caixa de ritmos.
No entanto, as pequenas (mas evidentes) falhas na bateria não afectam todo o sentimento geral que o álbum emana pelo que não deve ser visto como algo castrador da fluidez do trabalho. Até porque a bateria surge apenas, como já tinha referido, para dar relevo à atmosfera violenta e odioso de The Cold Earth Slept Below e nesse campo não se podem apontar quaisquer lacunas.

Num plano de bastante maior destaque que a bateria (e que o baixo que é inaudível) encontram-se as estridentes e cortantes guitarras que atravessam todo o álbum. O trabalho é maioritariamente assente em riffs gélidos repetidos várias vezes durante as musicas. O trabalho é simples, mas é possível escutar uma grande variedade no mesmo: existem momentos de Black Metal mais furioso (remanescente do trabalho de Darkthrone em Transilvanian Hunger) como é o caso de Damned Below Judas; passagens mais lentas e com riffs épicos, algo que pode ser encontrado na faixa-título; melodias atmosféricas com um efeito altamente hipnotizante que pode ser ouvidas, por exemplo em Babylon.
O interessante neste aspecto é o facto de quase todas as músicas apresentarem esta diversidade. Não pela mesma ordem nem seguindo sempre o mesmo padrão, o que tornaria a escuta monótona rapidamente, mas várias faixas têm as variações descritas e apesar de pintarem uma paisagem bastante monocromática, fazem-no de uma maneira bastante interessante. Fidelity - uma das melhores faixas do álbum, diga-se - é um dos bons exemplos deste aspecto que The Cold Earth Slept Below apresenta, indo dos caóticos às melodias soturnas e mais lentas.

Com as guitarras a conduzir, o álbum vai-se movimentando em diversos campos dentro do Black Metal com o objectivo de criar uma atmosfera desoladora e vazia em consonância com a filosofia niilista seguida por Akhenaten, onde se constata a falta de valor ou propósito da existência (humana). De facto, esse é o sentimento que enche e percorre o álbum. Mesmo não sendo possível o acesso às letras (tudo o que se pode perceber é através de audição directa), o sentimento de invasão por parte de um enorme vácuo é a mais perceptível característica dos quase quarenta e quatro minutos que compõe o álbum.
Contudo, não se pense que este efeito é atingido calmamente. Como mencionado, existem momentos mais lentos e arrastados, mas a incursão pelo lado mais rápido e agressivo do Black Metal está bem presente e o ódio surge como transporte precisamente para a desolação. Atente-se logo ao início do trabalho com Damned Below Judas onde a primeira palavra vociferada é precisamente: Hatred. Uma declaração de intenções bem directa logo nos primeiros segundos do álbum.

Para completar o ambiente geral do álbum, temos a voz de Harris. As vocalizações são bastante típicas do género (arriscaria até dizer que este é o padrão de voz para o Black Metal moderno): guturais poderosos que, por se encontrarem um pouco enterrados na produção, têm um som abafado e distante, o que enfatiza a atmosfera odiosa e cinzenta do álbum. Não sendo exactamente originais (são bastante na linha do que Nocturno Culto já fazia em 1996), as vocalizações neste primeiro álbum de Judas Iscariot ganham dimensão e destaque muito maior devido à sinceridade por emanada por Akhenaten e pela forma como se encaixam nos riffs arrastados (os vocais resultam melhor nas partes menos rápidas das músicas), criando uma ideia de narração filosófica. A última faixa do álbum, que tem o sugestivo nome de Nietzche, é o melhor exemplo do que acabo de referir, nomeadamente devido à entoação quase profética que os vocais assumem.

Todo o trabalho é bastante homogéneo no seu todo. As variações que referi surgem sobretudo dentro de cada faixa, mas a atmosfera de faixa para faixa é sensivelmente a mesma. Não se esperava outra coisa e é precisamente este envolvimento que o trabalho tem que o torna interessante.
Como já foi amplamente exposto, não se trata de um trabalho original em termos estritamente musicais (embora hoje possa soar ainda menos uma vez que muitas bandas trilharam o mesmo caminho que os antecessores de JI ou do próprio projecto norte-americano) pelo que vale fundamentalmente pela qualidade imprimida ao álbum.
Neste caso em concreto, a mais valia do álbum é conseguir manter a qualidade e interesse por dois motivos: por um lado, há uma envolvência geral muito bem conseguida e que consegue transmitir na perfeição o sentimento niilista que Harris pretende; por outro lado, existem vários momentos (sejam riffs arrepiantes, passagens melódicas de cortar a respiração ou simplesmente instantes de Black Metal executado com o sentimento certo) que por si só se tornam verdadeiros hinos e o melhor é que há muitas alturas em que isso acontece.
Os momentos arrastados e tenebrosos de Damned Below Judas ou Fidelity, os riffs bastante inspirados em Babylon ou no riff principal de The Cold Earth Slept Below e ainda a hipnótica e longa viagem de Nietzsche (tema que de alguma forma se torna no paradigma máximo do trabalho e porventura do próprio projecto), são (por si só) tudo fantásticas demonstrações de como deve ser feito BM, mas quando integrados num álbum com a capacidade de proporcionar um efeito de abstracção exterior para uma maior exploração individualista, tornam-se ainda melhores e transcendem a qualidade intrínseca que cada uma dessas demonstrações teria já por si só.

Conclusão
The Cold Earth Slept Below não é um álbum fundador do género em que se insere, mas é sem dúvida único na sua abordagem temática ao género. Isto confere-lhe uma atmosfera e força únicas, que tornam o primeiro álbum de Judas Iscariot um importante contributo para cimentar o que o Black Metal tem de melhor.
Além disso, foi um começo estrondoso para um projecto que se tornaria numa instituição bastante respeitada no meio em que estava musicalmente inserida, ao longo dos anos em que se manteve activo.

Não é um trabalho de assimilação fácil. Não o pretende ser e isso também é um dos seus pontos positivos. É uma honesta transposição de ideais ditos extremos para música de índole semelhante. Uma recriação poderosa de ideais niilista consubstanciada em três quartos de hora de puro e negro Black Metal. O facto de querer ser "apenas" um trabalho honesto neste campo não o torna menos louvável e admirável, muito pelo contrário.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Corpus Christii - Tormented Belief

Corpus Christii - Tormented Belief

Introdução
Quando em 2007, Nocturnus Horrendus finalizou a trilogia "Tormented" fechou-se um ciclo que representa provavelmente a melhor sequência de álbuns dentro das criações feitas no Black Metal nacional.

Se quisermos olhar para a evolução temático-filosófica desta mesma trilogia, podemos conceber uma ascensão que começa na mais desesperada das agonias e vai de alguma forma caminhando em direcção à luz do conhecimento e da perfeição (a própria ideologia do mentor de Corpus Christii ajuda a entender a procura por este último aspecto).

O início desta "viagem" deu-se com o mais negro e doentio álbum da trilogia: Tormented Belief. Conforme é dito por Nocturnus Horrendus, o álbum surge na mais conturbada altura da vida do mentor de Corpus Christii e dado o cariz (muito) pessoal do projecto (especialmente nesta trilogia) é natural que todas as perturbações vividas nessa altura por NH sejam transpostas para o álbum... em forma de dolorosas e odiosas ondas sonoras.

Tormented Belief marca igualmente uma viragem no som de CC (que acompanha a própria mudança de conceitos abordados), tornando o som "melancolicamente" mais refinado (embora mantendo a agressão e brutalidade dos trabalhos anteriores), com especial atenção à composição dos temas de forma a conferir aos mesmos uma carga negativa e emocional maior, factor que enriquece (bastante) a atmosfera global do trabalho.



Alinhamento
1. Melancholy Beginning
2. Forgotten Dead Crow
3. My Blood In Your Hands
4. Arising From The Ashes
5. Devouring Your Essence
6. Being As One With Hatred
7. Me, The Hanged One
8. Constant Suffering

Ano 2003

Editora Nightmare Productions

Faixa Favorita 8. Constant Suffering

Género Black Metal

País Portugal

Banda
Nocturnus Horrendus - Baixo, Guitarras & Voz
Necromorbus - Bateria



Review
O cenário de mudança em Tormented Belief começa logo a ser desenhado na própria morfologia da banda no álbum. Pela primeira vez, Corpus Christii tem em estúdio um baterista real (substituindo a habitual drum machine que vinha sendo utilizada nos álbuns anteriores).
O baterista escolhido foi Necromorbus, prolífero músico da cena Black Metal europeia e de reconhecidos (trabalhou, entre outros, com Watain, In Aeternum e Funeral Mist).

Começando precisamente por este (primeiro) factor de mudança, Necromorbus faz um trabalho bastante competente a dar uma furiosa alma rítmica a todo o disco. Os ganhos são por demais evidentes, sobretudo porque a maior variedade do álbum face aos anteriores exige uma melhor articulação entre os momentos mais rápidos e as partes mais lentas, algo que Necromorbus faz com bastante eficácia (vejam-se, a título de exemplo, as mudanças de ritmo em Melancholy Beginning).
Além do mais, um trabalho com uma abordagem tão "humana" (do ponto de vista da exploração dos aspectos mais negativos da espécie, entenda-se), não se compadecia com a limitação maquinal de uma drum machine, pelo que, além de um factor de maior interesse, era algo absolutamente necessário para que a globalidade do álbum não sofresse um duro revés.

No entanto, apesar do bom desempenho de Necromorbus, a principal personalidade do álbum (em toda a plenitude da afirmação) é, naturalmente, Nocturnus Horrendus. É da mente de NH que o álbum toma forma, se concretiza e, claro, se torna verdadeiramente interessante.
Quer sejam os riffs melancólicos, os vocais tresloucados de sofrimento ou a conceptualização da dor em forma de música (as letras aqui desempenham um papel fundamental), a verdade é que Tormented Belief sai directamente do consciente de NH.

Não se trata de um expurgar de polémicas, mas de algo mais (ao contrário do que muitos dizem e disso fazem uma estúpida bandeira para criticar CC). Tormented Belief, pela mão de NH é um cruel exercício misantrópico, onde a criação artística é uma extensão do interior do compositor. Claro que isto acontece inúmeras vezes, em inúmeros álbuns, mas raros são as bandas que conseguem fazê-lo de forma interessante, sem entrar no campo da intransmissibilidade ou de cair nos clichés fáceis que são apanágio das tentativas frustradas do relato de algo tão pessoal.

É evidente que devido a ser um álbum tão particular, ninguém está em condições de compreender totalmente o que é que se pretende transmitir, mas é possível absorver a atmosfera melancólica, o ódio, a agonia e todo um turbilhão de emoções carregadas de negatividade. Nestes aspectos pode, de facto, haver uma identificação (ou dar-se o fenómeno contrário, obviamente) de quem ouve o álbum e surgir um interesse redobrado pelo trabalho. No meu caso, isto é um dos principais factores que me faz ouvir Tormented Belief bastantes vezes...

Claro que tudo isto seria completamente inútil se não fosse suportado musicalmente por um trabalho poderoso e esmagador, como nos é apresentado em Tormented Belief.
Neste campo, de destacar a produção, que não sendo cristalina, constrói um ambiente claustrofóbico e perfeito para o género em questão. Nota-se também aqui uma notória mudança em relação ao trabalho anterior da banda.

Instrumentalmente falando há um destaque natural para as guitarras e consequentemente para os riffs. O trabalho de guitarra do álbum acompanha - obviamente - todo o ambiente geral do álbum, pelo que se podem esperar riffs a transbordar de melancolia, raiva e ódio.
Não sendo um trabalho de guitarra complexo, do ponto de vista técnico (como Rising, por exemplo), a sobreposição de guitarras, a forma como tudo está colocado no sítio certo de forma a tornar a experiência auditiva (ainda) mais agonizante revelam uma das grandes virtudes deste álbum: as qualidades de composição que são por demais evidentes em Tormented Belief.
O clima de mudança (prefiro o termo "mudança" ao termo "evolução" em relação a CC devido ao carácter qualitativo que o segundo muitas vezes encerra) é também evidente, uma vez que o surgimento de várias "camadas" de riffs contrasta claramente com o trabalho mais directo dos álbuns anteriores.

No entanto, e apesar de tudo, há algo que se consegue sobrepor aos aspectos que positivamente destaquei anteriormente: a voz e a lírica de Nocturnus Horrendus.
Claro que a compreensão (ou talvez a assimilação individual que cada um faz) das emoções e dos estados de espírito que os temas (e o álbum em geral) transmitem passam muito pela leitura das letras que NH vai soltando odiosamente durante todo o disco.
Isto é algo que acontece em quase todos os álbuns, no entanto, neste caso (e pela própria produção do álbum que põe em destaque a voz) torna-se em algo único, porque não há um verdadeiro trabalho vocal da parte de Nocturnus... existe sim um soltar animalesco de momentos homicidas, misantrópicos, demoníacos (e provavelmente dos demónios pessoais do vocalista...): uma enorme dimensão de viscerais vocalizações que consubstanciam toda a negritude adjacente a Tormented Belief.

O trabalho vocal é perfeitamente complementado com uma lírica que lida com uma série de sentimentos de obscuros e perversos que vão desde assassínios, puro ódio e a abordagem da morte como a libertação única de todo o sofrimento.
Este último aspecto leva-nos a algo que todo o álbum transmite (não apenas as letras): o desesperante mergulhar na agonia e dor como única forma de existência. Não por um qualquer desejo de auto-flagelação mental, mas porque são estas as emoções que surgem como as mais verdadeiras.
Tal como tudo no álbum, as letras apresentam-se num plano bastante pessoal que apesar de poder ser, à partida, assimilado, torna a sua interpretação sempre muito relativa (ainda mais que o habitual na maioria dos álbuns).
Ainda para mais algumas letras são bastante alegóricas (sobretudo no que diz respeito à expurgação homicida perpetuada pelo "narrador" das letras) o que reforça ainda mais este aspecto.

Todo o álbum surge bastante homogéneo nos seus aspectos mais gerais, mas encerrando a cada tema algo de novo, o que ajuda a manter o interesse ao longo dos quase quarenta e cinco minutos de audição.
No caso de Melancholy Beginning temos bastantes variações de tempo, sejam as velocidades dilacerantes impostas pelas guitarras, ou os riffs mais lentos e melancólicos que suportam os arrepiantes (e singulares) guturais de NH.
Os temas seguintes seguem a mesma linha, embora contendo sempre riffs e variações que não são ouvidas em mais nenhum momento do álbum. Exemplo disto são os riffs inicias de Arising From The Ashes que são um dos destaques do álbum, ou os momentos que de alguma forma relembram Celestia (com as devidas diferenças, claro) em Devouring Your Essence e Being Us One With Hatred.

Há, apesar de tudo o que já foi dito, um momento marcante em Tormented Belief e que mesmo que todo o brilhantismo do trabalho não fosse uma realidade, já faria valer a pena, por si só, ouvir o álbum. Falo do meu tema preferido de Corpus Christii, Constant Suffering.
O tema é de alguma forma mais melódico e não apresenta (na maior parte do tempo) a velocidade que o resto do trabalho tem, mas devido à simbologia do mesmo no álbum, se compreende, aceita e depois de absorvido, se louva. É um tema carregado de emoção... não de um qualquer romantismo fácil, mas de sentimentos perturbados e cruelmente odiosos... um perfeito resumo do que Tormented Belief (e a própria banda nesta sua fase da carreira) representa... e na minha óptica o tema é paradigmático daquilo que o próprio Black Metal deve ser.

Conclusão
Tormented Belief apresenta-se como um disco único na cena portuguesa e sobretudo porque surgiu numa fase em que o Black Metal já não via algo tão refrescante há já algum tempo. Mesmo à esfera global, é uma abordagem original ao próprio género. Mas mais importante do que isso, é um grande álbum, uma prova inegável da qualidade que Corpus Christii atingiu, muito especialmente com fase iniciada neste mesmo trabalho.

Pessoalmente é o meu trabalho preferido de Corpus Christii. Porque é musicalmente um trabalho sublime, porque é um álbum perturbado e coberto de "texturas" que me dizem muito, mas acima de tudo porque a identificação que sinto com Tormented Belief é enorme (os motivos por detrás da mesma não os mencionarei) e por isso mesmo, faz com que seja um trabalho essencial para mim.
Mas mesmo para quem não sinta tal identificação é uma obra sublime de Black Metal.

PhiLiz

domingo, 2 de novembro de 2008

Corpus Christii - Rising

Corpus Christii - Rising

Introdução
Corpus Christii é hoje uma das maiores entidades do BM a nível mundial e em Portugal a banda de NH é provavelmente a referência máxima do género.
Para este "estatuto" muito contribuem as três fazes da trilogia que Rising finaliza, que representam segundo NH: a devastação total (Tormented Belief), seguindo-se a raiva e a auto-descoberta (The Torment Continues), finalizando-se com a ascensão e subsequente descoberta da luz nesta última proposta da banda.
Os registos de 2003 e 2005, de enorme qualidade, deram ao projecto de NH ainda mais notoriedade ao mesmo tempo que mostravam os passos para um tipo de sonoridade mais trabalhada e distinta daquela seguida pela banda até então, embora o Black Metal se apresente hoje, como em 1998 (ano de formação da banda) como característica principal de Corpus Christii.

No entanto, o Black Metal de CC a partir de 2003 surge como uma criação muito pessoal do mentor da banda, Nocturnus Horrendus. Um misto entre melancolia musical e satanismo filosófico, numa abordagem ao género bastante mais complexa do que a feita pela banda anteriormente.
Nesta linha Rising surge como uma criação ainda mais ambiciosa (musicalmente falando) com elementos sonoros novos a CC, transportando Rising para um nível de excelência ainda maior do que o conseguido nos dois últimos trabalhos.



Alinhamento
01 - Intro
02 - Stabbed
03 - Blank Code
04 - Black Gleam Eye
05 - The Wanderer
06 - Torrents Of Sorrow
07 - Void Revelation
08 - Evasive Contempt
09 - Heavenless Bliss
10 - Untouchable Euphoria
11 - Bleak Existence
12 - Revealed Wounds
13 - Outro

Ano 2007

Editora Nightmare Productions

Faixa Favorita 12 - Revealed Wounds

Género Black Metal

País Portugal

Banda
Nocturnus Horrendus - Bateria, Baixo, Guitarras & Voz
Menthor - Bateria



Review
Gravado nos UltraSoundStudios e produzido Daniel Cardoso (o dono dos estúdios e antigo membro dos extintos Sirius), Rising apresenta-se muito bem produzido para o género.
Os instrumentos estão bastante audíveis: as guitarras têm uma afinação perfeita para o efeito pretendido, o baixo é perfeitamente perceptível (um dos pontos extra do álbum), a bateria é avassaladora e o trabalho com a voz está soberbo. Acima de tudo, tem alguma "sujidade sonora" e não é demasiado polido para um álbum de Black Metal o que por vezes pode colocar em causa a atmosfera geral do álbum, o que não neste caso.
Todos os instrumentos foram gravados na totalidade por NH à excepção da bateria, gravada quase inteiramente por Menthor dos Epping Forest. A este propósito é de referir o grande trabalho deste membro convidado. A bateria apresenta-se com uma força maquinal imensa, com diversas variações e uma execução imaculada. O produção ajuda muito a enfatizar a brutalidade que Menthor "empresta" a Rising. Sem dúvida um ponto muito positivo.

O resto vem directamente da mente de Nocturnus Horrendus. Os riffs melancólicos, mas ao mesmo tempo dilacerantes estão propositadamente mais destacados e são um dos maiores factores de interesse no álbum. Com diversas mudanças e sobreposições, o trabalho de guitarra vai de encontro à complexidade e evolução que a banda tem tido, mas são os momentos melancólicos e genuinamente deprimentes que dão um toque ainda mais pessoal a um trabalho pincelado pela dor e pelos tons negros da mente humana.
Nesta mesma linha, o baixo encontra-se bastante presente e de uma forma um tanto ou quanto surpreendente assume-se como um elemento que para além de completar dá uma atmosfera ainda mais distorcida e arrastada às músicas (como acontece, por exemplo em Stabbed).

A voz assume-se, obviamente, como o elemento que mais transmite as emoções na música de Rising e neste ponto é preciso dar um grande destaque à excelente performance de NH.
Variando entre um gutural bem reconhecível, angustiantes gritos de dor e momentos mais limpos, os vocais são um dos factores mais interessantes do álbum. NH expele o ódio e a misantropia através de alguns dos mais arrepiantes momentos vocais alguma vez executados sob o nome de Corpus Christii e o álbum ganha incomensuravelmente com isso.

Mencionei anteriormente que este seria porventura o álbum (musicalmente) mais ambicioso de Corpus Christii e isto é algo que se compreende assim que se começa a ter uma ideia das várias influências e dos pormenores bastante diversos que Rising encerra.
Os riffs e ritmos mais lentos e soturnos remetem para uma atmosfera Doom que abrilhanta e diversifica ainda mais o álbum. Neste sentido faixas como The Wanderer ou a emocional Revealed Wounds têm sons que vão para além do espectro do Black Metal.
Há algumas bandas que vêm à cabeça aquando da audição do álbum como Deathspell Omega ou Ved Buens Ende, sobretudo devido à variedade rítmica e à atmosfera criada, mas Corpus Christii tem uma envolvência única devido à forma como tudo se passa muito no plano pessoal, o que transparece bem para a música.

Outro factor que é facilmente reconhecível no álbum é a religiosidade que lhe está inerente. NH denomina Corpus Christii como uma banda de Black Metal religioso, de cariz demarcadamente satânico. A Intro com o seu coro evangélico ajuda neste aspecto, mas todo o álbum remete para este sentimento religioso. No que concerne a esta matéria alguns momentos líricos demonstram bem que apesar de as letras estarem já longe de algo como All Hail... (Master Satan) a devoção a Satanás, o espalhar da sua palavra e o encontrar da verdade através do mesmo são o objectivo primordial de NH, como visceralmente expelido em Void Revelation:Satan! Life for those who seek the truth!

Todas as faixas são bastante únicas e distintas (embora o sejam apenas o suficiente para manter o interesse e não soem demasiado díspares e desgarradas de uma linha comum) o que faz do álbum não só um conjunto bastante coeso e sólido, mas igualmente uma fonte de grandes hinos de Black Metal.

Neste aspecto há a destacar Stabbed, logo a primeira faixa do álbum (a seguir à Intro) e que deambula por entre os riffs cortantes e momentos mais atmosféricos, tudo isto com Nocturnus Horrendus exprimir os mais desesperantes sentimentos de forma agonizante.
No momento que se segue a bateria de Menthor tem um dos seus pontos altos. Blank Code tem um ritmo mais rápido na maior parte do tempo, mas também é onde se pode encontrar um dos primeiros momentos em que Nocturnus Horrendus usa uma voz mais falada, o que dá uma ideia de ritual e que resulta muito bem.
Ainda nesta toada mais tradicional encontramos Untouchable Euphoria (com alguns elementos mais Thrash à mistura) ou Evasive Contempt que dão corpo à vertente mais rápida do álbum.
Os riffs tristes são enfatizados em faixas como The Wanderer, Torrents Of Sorrow, Heavenless Bliss ou no momento mais emocional (e simultaneamente mais brilhante) do álbum Revealed Wounds onde numa toada depressiva tudo flui numa corrente de pura melancolia.

Cada faixa tem pormenores que só serão notados à medida em que o álbum for absorvido. É este outro dos grandes pontos do álbum, onde as faixas vão ganhando de uma forma estranha nova força e nova dinâmica, seja individualmente, seja no contexto de um álbum que devido a uma atmosfera rica em vários elementos se torna numa autêntica surpresa, a cada audição.

Quando totalmente absorvido, a ideia geral que mais se retém é a expurgação de sentimentos negativos muito fortes e vincados. O arrepiante Outro é parte essencial disto mesmo e mais do que algo que soe esteticamente bem, é um grito (literalmente) libertador de tudo quanto a trilogia Tormented encerra.

Conclusão
O mínimo que se pode dizer é que Rising é mais um enorme passo em frente na carreira de Corpus Christii e demonstra em especial todas as potencialidades de composição do seu mentor, Nocturnus Horrendus. Desta vez NH conseguiu uma obra extrema em sonoridade e complexidade, bem como cimenta a unicidade de CC no panorama do Black Metal mundial.

Rising assume-se inevitavelmente como um dos melhores lançamentos de 2007 (seja em que dimensão territorial estejamos a falar), bem como uma das mais brilhantes criações de sempre na cena Black Metal nacional.

PhiLiz

sábado, 1 de novembro de 2008

HIM - Venus Doom

HIM - Venus Doom

Introdução
Quando se fala na banda finlandesa de Ville Valo é normal pensar-se em estruturas musicais simples, tendencialmente a virar para o Rock mais acessível (sobretudo a partir do já longínquo e genial primeiro álbum). Não que seja um facto totalmente negativo (a própria natureza da banda assim determina este aspecto), mas a verdade é que do ponto de vista musical e se quisermos técnico, HIM não era, de todo, uma banda com grande complexidade (não que isto signifique que os músicos eram insatisfatórios a este nível). Esta ideia saiu reforçada com o lançamento de Dark Light (anterior álbum da banda, de 2005), um trabalho nitidamente mais acessível e Pop, mesmo tendo em conta os anteriores trabalhos da banda e o sucesso que alcançaram.

Logo quando saíram as primeiras informações sobre o álbum, a banda apontava para uma direcção mais pesada e ambiciosa do ponto de vista musical, apenas continuando liricamente a linha poética e alegórica que se encontra presente desde Love Metal. A opção pelos mesmos produtores (Tim Palmer e Hiili Hiilesmaa, este último o mesmo que produziu o primeiro álbum da banda) desse mesmo trabalho (datado de 2003), indicava que iria ser um trabalho mais virado para as guitarras e sons mais pesados do que, pelo menos, o anterior.

Estas indicações confirmam-se na totalidade. Se Dark Light foi uma grande mudança no som de HIM, Venus Doom também o é, mas numa direcção completamente oposta. Os factores que tornam o som imediatamente associável à banda, estão presentes (principalmente a voz), mas há vários elementos novos a qualquer álbum que a banda tenha feito e logo à partida este facto torna o álbum bastante interessante.



Alinhamento
01 - Venus Doom
02 - Love In Cold Blood
03 - Passion's Killing Floor
04 - Kiss Of Dawn
05 - Sleepwalking Past Hope
06 - Dead Lover's Lane
07 - Song Or Suicide
08 - Bleed Well
09 - Cyanide Sun
10 - Love In Cold Blood [Special K Remix] */**
11 - Dead Lovers' Lane [Special C616 Remix] */**
12 - Bleed Well [Acoustic] **

* - Apenas disponível na edição especial do álbum.
** - Apenas disponível na edição limitada do álbum.

Ano 2007

Editora Sire Records

Faixa Favorita 05 - Sleepwalking Past Hope

Género Gothic Rock

País Finlândia

Banda
Emerson Burton (Janne Puurtinen) - Teclados
Gas Lipstick (Mika Karppinen) - Bateria
Linde (Mikko Lindström) - Guitarra
Migé Amour (Mikke Paananen) - Baixo
Ville Valo - Voz



Review
O som de um isqueiro e de seguida um suspiro...
É assim que Ville Valo inicia o álbum, o sexto da banda: em tom catártico. É bem compreensível que assim o seja, após vários acontecimentos traumáticos com o vocalista da banda desde o lançamento de Dark Light no fim de 2005. Os detalhes sobre os mesmos são irrelevantes, mas o impacto que estes tiveram na banda são importantes (como um todo e não como acontecimentos isolados) e ajudam a perceber a toada reinventiva da essência da própria banda que Venus Doom toma.

O que se nota logo à partida no álbum é uma vontade experimental enorme. Seja através das texturas musicais criadas pelas guitarras, as partes instrumentais muito ao jeito de Black Sabbath (influência confessa da banda), as peculiares intromissões do baixo ou ainda as letras, cada vez mais complexas e literárias (uma clara mudança desde os primeiros tempos da banda, onde o amor trágico surgia retratado de forma bem mais directa e simples), a verdade é que todo o álbum é envolto numa atmosfera bastante densa e que tem várias incursões a géneros que a banda nunca explorara antes.

Concretizando, temos um claro piscar de olho a algumas ideias mais progressivas, facto até aqui completamente inédito e corporiza-se sobretudo na não utilização da habitual composição, "verso-refrão-verso-refrão", bem como alguns arranjos que fazem lembrar o estilo. As próprias opções a nível da duração das músicas reflectem algumas influências do estilo.
É ainda possível distinguir alguns elementos bem Doom (este facto é uma das mais surpreendentes revelações de todo o álbum e está bem presente em todo o trabalho) e que tornam o álbum soturno, negro e com uma áurea profunda de melancolia. A música não é, obviamente, tão arrastada ou pesada como a praticada nas bandas mais pesadas do estilo, mas a simbiose suave das características principais do Doom (o refrão neste aspecto é bem literal) com o som mais "rockeiro" da banda, é uma das principais características dos HIM neste álbum.
Ainda neste campo, Black Sabbath surge como influência óbvia. Muitos riffs têm essa influência claramente destacada e os próprios momentos instrumentais que criam a atmosfera negra do álbum são remanescentes da banda de Tony Iommi.

A guitarra assume-se como o motor desta evolução ocorrida em Venus Doom comparativamente com os álbuns anteriores. Linde é um excelente guitarrista, que sempre deu à banda um toque único, mas nunca terá tido uma performance tão central num álbum. Se é certo que uma das principais marcas de HIM era a distorção muito própria dos primeiros trabalhos e esta desapareceu... mais certo ainda é que Linde tem um papel multi-facetado e essencial para a definição das principais ideias do álbum, bem como para os objectivos da banda nesta fase.
Os riffs sujos e bastante "sabbathianos" são a nota dominante no álbum, a par com os inúmeros solos que todas as músicas sem excepção apresentam. Este foi de resto, um caminho pelo qual a banda explicitamente optou, isto é, dar mais destaque e tempo à guitarra nesta proposta.
O trabalho de guitarra apresenta-se assim como um dos principais pontos de interesse do álbum. Muito variado, pesado, como uma distorção diferente da usada antigamente mas ainda assim distinta da maioria do que se faz actualmente, com vibrantes passagens em várias músicas entre muitos outros atractivos que se vão descobrindo a cada audição, pois os pormenores com que Linde vai polvilhando o álbum são muitos e variados.

Instrumentalmente, outro dos factores que se saúda é o regresso do baixo a um papel de relevo num trabalho da banda. Depois de alguns álbuns relegado para segundo plano, Migé volta a apresentar-se como um elemento realmente importante na construção da atmosfera de um álbum de HIM, tal como acontecia nos tempos de Razorblade Romance, não se limitando a "encher". Em consonância com a guitarra, o baixo assume um papel importante para a atmosfera densa e profunda que todo o álbum tem, através de riffs fortes e demarcados. Alguns dos melhores momentos do álbum são quando o baixo e a guitarra como que se interligaram e formam um par sonoro atmosférico e negro que em muito beneficia o sentimento geral de Venus Doom.

A bateria de Gas encontra-se numa toada semelhante a tudo o resto, com diversas variações de estilo em todo o álbum. Esta versatilidade assenta bem a Gas que é um vocalista bastante completo e cheio de ideias musicalmente distintas (é, por exemplo, baterista numa banda de Grindcore), tal como provam os momentos de espantoso relevo e exoticidade (a percussão em Sleepwalking Past Hope é um destes momentos).
Os teclados por outro lado, estão menos presentes do que em Dark Light, não deixando ainda assim, de dar um sentimento épico e melancólico ao trabalho, sobretudo nos momentos onde os instrumentos assumem uma posição privilegiada em relação à voz.

Falando nesta mesma voz, este é sempre um dos principais factores de destaque em álbuns de HIM e sobretudo para os fãs da banda. A voz de Valo apresenta uma expressividade e vulnerabilidade que sempre foram muito apreciadas pelos fãs e por outro lado, criticadas por alguns detractores da banda (embora a maioria das críticas neste campo sejam absurdas demais para uma menção séria).
Em Venus Doom, Ville Valo exibe-se mais maduro e ciente das suas capacidades vocais, variando entre registos mais agudos e graves, com especial destaque para estes últimos, que sempre foram um dos pontos fortes do vocalista de HIM. De resto, a voz acompanha inteiramente toda a temática lírica do álbum. A dualidade entre o amor e a tragédia é analogamente representada pela voz ora mais suave, ora mais soturna de Valo.
Liricamente, o álbum apresenta-se como um dos mais ricos da banda, com a poesia fantasmagórica, mas romântica de Valo, num estilo muito literário e alegórico, sempre tendo o amor trágico como pano de fundo. De resto, o álbum tem de alguma forma um conceito comum a algumas músicas, conceito esse que se prende com uma paixão com o fim trágico no clímax do álbum, Sleepwalking Past Hope.

De facto, as variações entre momentos mais habituais da banda e devaneios "à lá" Doom que estão particularmente presentes em Venus Doom ou Passion's Killing Floor são de resto uma simbiose à qual poderíamos de forma muito redutora chamar Doom Rock e que representa todos os sentimentos que a banda quis por no álbum. A última música do álbum, Cyanide Sun é o exemplo perfeito deste contraste entre peso e delicadeza, tragédia e beleza.
Até a música escolhida para o single, Kiss Of Dawn (música dedicada a um amigo da banda que faleceu pouco depois de finalizadas as gravações de Dark Light) tem na sua versão álbum um momento final muito mais exótico que o habitual na banda, com os teclados a envolverem a música num misto de mistério e erotismo.
Todas as músicas são de resto bem mais pensadas, tendo o álbum menos faixas que o habitual (apenas nove na edição normal) em HIM precisamente para evitar que houvessem músicas a mais o que se materializou em mais faixas de grande qualidade como é o caso da mais acelerada Love In Cold Blood, de um momento muito espiritual em Dead Lover's Lane ou Bleed Well num tom mais Pop e alegre que acaba por ser distinto do resto, mas encaixar-se muito bem no álbum.

Todo o álbum é contrastante: se por um lado temos o peculiar acústico Song Or Suicide com pouco mais de um minuto muito caseiro e introspectivo, temos por outro a opus do álbum, Sleepwalking Past Hope que simboliza tudo o que Venus Doom tenta demonstrar e fá-lo de forma brilhante. A mais longa faixa que a banda produziu até hoje, com mais de dez minutos de duração, é uma épica e negra viagem por um mundo onde várias emoções se cruzam de forma contagiante. Com momentos mais calmos e tristes onde o teclado vai dando um sentimento melancólico à música ou com momentos onde os solos de guitarra dão uma vibração fantasmagórica ao tema, tudo está perfeitamente interligado e redunda numa mensagem desolada, no momento mais pessoal e desolador do álbum. Se necessário fosse resumir o álbum num simples minuto seria o meio de Sleepwalking Past Hope onde a estrofe abaixo citada está inserida, seria o ideal:

I gave up long ago
Painting love with crimson flow
Ran out of blood and hope
So I paint you no more


Simplesmente arrepiante, uma das melhores músicas de HIM em muito tempo.

Quase no fim deixo uma pequena consideração. Este álbum foi "publicitado" como o mais pesado de HIM. Será o mais variado, talvez o mais bem conseguido musicalmente e o mais ambicioso, mas não concordo com o facto de ser o mais pesado. Nesse campo, a estreia da banda com Greatest Lovesongs Vol.666 (que permanece o meu favorito) tem um ambiente que puxa muito mais para o Gothic Metal, factores que se foram transformando ao longo da carreira da banda, inclusive em Venus Doom.
O "Gothic" em HIM está presente mas deixou de ser o principal "ambiente" presente nos álbuns e por outro lado a sonoridade, sendo pesada, é-o doutra forma, mais suja e não de forma tão agressiva e literalmente distorcida como o era no início.
Nenhuma destas considerações belisca a excelente qualidade deste álbum. A banda mudou e essa mudança deu grandes frutos, como é o caso de Venus Doom.

Conclusão
Formados já no longínquo ano de 1991(!), os HIM dão uma prova cabal de reinvenção e ambição musical com Venus Doom, um álbum cheio de grandes surpresas, talvez até mais para aqueles familiarizados com o anterior trabalho da banda.

A sonoridade não é a mesma do início da carreira e alguns (ou algumas...) poderão não compreender a profundidade e a evolução da banda, mas é inegável que a qualidade é a mesma, simplesmente "aplicada" de outra forma e com a maturação que o tempo sempre permite às grandes bandas.

PhiLiz

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Xasthur - Nocturnal Poisoning

Xasthur - Nocturnal Poisoning

Introdução
Num género cujo dinamismo e mutação constantes não são tão notados como na realidade acontecem, Xasthur surge como uma inovação, não de um ponto de vista estrutural, mas como um extremar e numa toada de levar mais longe algo que já tinham de alguma forma, sido anteriormente fundado.

Na prática, projectos como Strid, Silencer (ambas as bandas de uma forma mais típica do estilo, embora com elementos distintos do que geralmente existe no BM, mas acima de tudo Mütiilation (antigo projecto das LLN e que tem direito a uma cover neste álbum, o que mostra a sua influência em Xasthur) já tinham nos seus lançamentos a partir do meio dos anos 90, materializado o que hoje se convenciona chamar Depressive Black Metal ou mais recentemente SDBM (Suicidal Depressive Black Metal), mas Scott Conner (nome pouco reconhecido, mas que é o verdadeiro nome por detrás de Malefic) levou o conceito aos limites da sua vertente mais violenta e sufocante.

Logo nos primeiros trabalhos compreende-se a estética negra e melancólica do projecto de Malefic, através de uma produção enterrada e desconexa, com influências claras da fase mais ambiental de Burzum. Aliás, estaria longe de imaginar em 1996, um dos mais geniais compositores de Metal dos anos 90, quando lançou as bases para um "devaneio" estético dentro do BM. Falo claro de 'Filosofem', última demonstração extrema pelas mãos de Varg.
De um ponto de vista morfológico, Burzum é, inclusive, uma influência por demais evidente, uma vez que depois de Malefic abandonar a ideia de ter uma banda, concentrou-se apenas ele em Xasthur.

No entanto, Malefic vai (musical e conceptualmente) mais além, pois por detrás do projecto há um objectivo claro, uma ideia fixa e fomentar a extinção da raça humana, num impulso claramente misantrópico e que é inerente à própria pessoa do mentor do projecto.

Em 1999, e já como um projecto individual na sua totalidade, começam os primeiros split's, demos e EP's, lançando fortes indicações do que viria a ser lançado neste primeiro álbum, em 2002.
Em 'Nocturnal Poisoning', Xasthur confirma-se como um projecto extremo, onde a misantropia e a intenção clara de enterrar de enterrar em depressão as almas que se cruzem com a índole perturbadoramente depressiva de Xasthur, se tornam em algo magistralmente transposto numa (negra) obra-prima sonora.



Alinhamento
01 - In The Hate Of Battle
02 - Soul Abduction Ceremony
03 - A Gate Through Bloodstained Mirrors
04 - Black Imperial Blood
05 - Legion Of Sin And Necromancy
06 - A Walk Beyond Utter Blackness
07 - Nocturnal Poisoning
08 - Forgotten Depths Of Nowhere

Ano 2002

Editora Blood Fire Death

Faixa Favorita 01 - In The Hate Of Battle

Género (Depressive) Black Metal

País EUA

Banda
Malefic (Scott Conner) - Todos os instrumentos e voz.



Review
Uma das primeiras impressões que se tem de Xasthur é o carácter perturbante das músicas, quando absorvidas no seu total desespero e melancolia. Não falo numa tentativa de ouvir a banda como se de uma banda de (Black) Metal mais típico se tratasse, mas sim de uma verdadeira forma de deixar a invasão sonora do projecto de Malefic penetrar na mente, com toda a sua intensidade. Ai, até mais do que tristeza, misantropia, desolação, sentimentos depressivos e suicidas, temos um vazio perturbador, algo pior que a negatividade, simplesmente uma paisagem sonora monocromática, tão forte que inutiliza os sentidos e o pensamento.
Talvez este efeito de afastamento e palidez, seja provocado pela antítese que representa a existência de Xasthur, projecto fundado num dos mais agitados estados dos Estados Unidos. Quando se vive na Califórnia, como Scott Conner vive, os sentimentos negativos são uma ilha no meio das sensações antagónicas aqui presentes.

Tudo em Xasthur é pouco convencional. As estruturas das músicas (cinco das oito neste álbum a superar os sete minutos de duração) são muito diferentes do habitual, mesmo em relação ao BM, com várias variações de ritmo constantes, um forte uso de teclados e sobreposição de guitarras. A produção é enterrada e crua, mas sempre deixando ouvir com clareza os elementos presentes, criando assim uma atmosfera intensa e sufocante, factor este que é marca distinta de Xasthur. Aliás, quando se fala numa produção adequada à intencionalidade do álbum, 'Nocturnal Poisoning' adequa-se na perfeição. Uma produção demasiado límpida e cristalina tiraria parte do sentimento de distância e vazio que se prolonga durante todas as faixas, além de que se perderia grande parte da atmosfera nas músicas. É, portanto, a produção adequada para o efeito desejado e neste aspecto tem que se salientar o brilhantismo de Scott Conner, sobretudo em relação ao volume e momento em que cada elemento (particularmente voz, guitarras e teclados) surge nas músicas.

Falando dos elementos principais neste álbum de estreia, os teclados são provavelmente o instrumento mais distinto em todo o álbum. Existe um forte uso de sintetizadores para criar uma atmosfera intensa, ora melancólica, ora caótica, ora simplesmente triste. Aliás, musicalmente falando, será talvez o único instrumento com momentos mais complexos (a beleza de Xasthur está em muito associada ao minimalismo do projecto), muitas vezes surgindo apenas como pequenos lamentos, numa fúria caótica e desordenada, ou simplesmente extraordinariamente melancólicos. Os momentos criados pelos sintetizadores (falo no plural, porque muitas vezes são vários que são ouvidos durante o álbum) são muito belos, mas ao mesmo tempo de uma melancolia e desolação extremas. São como que a "outra voz" nas músicas, criando uma atmosfera densa e negra que caracteriza o álbum e até o próprio projecto em si (distingui-o claramente de outras bandas do género e que se colaram, com melhores ou piores resultados, ao conceito de Xasthur).
No entanto, não se espere teclados com um elevado cariz épico (são-no até certo ponto, mas numa interpretação muito própria de Malefic) e integrados num conceito de beleza comum ou tão pouco como são utilizados pela maioria das bandas do estilo. São por vezes os elementos mais demonstrativos de toda a dolorosa raiva que inunda o trabalho, contrastando com a sua habitual função puramente atmosférica (que, como já referi, também a tem) e transcendendo-se para uma angustiante beleza, onde a solidão reina e tudo surge como estando no eterno sofrimento.

Por seu turno, as guitarras têm um papel menos evidente que os teclados. São executadas com vários riffs repetidos de forma exaustiva, extremamente distorcidas e muitas vezes sobrepostas, formando o som "enterrado" que se ouve em todo o álbum. É de notar, no entanto, que à semelhança dos teclados, também é muitas vezes o elemento a dar uma áurea depressiva às músicas.
O baixo não é muito audível (o que não é novidade no estilo e sobretudo compreende-se pelo objectivo que Xasthur encerra) e quando é ouvido está geralmente integrado de forma simples nas faixas.
No que diz respeito, à bateria, esta é tocada por uma "drum machine", pelo que não há muito a dizer. Marca a passagem de ritmos de forma mais acentuada e de forma exacta, mas não representa um elemento distinto no álbum, o que tal como o baixo não é novidade e não é de forma alguma negativo, pois o objectivo do álbum não é focar estes elementos individualmente, mas sim torná-los parte de um todo, em si genial.

Chegamos por fim à voz. E falamos aqui no mais inumano elemento do álbum. Os vocais de Malefic, além de bastante enterrados na mistura final, encerram em si o objectivo principal do álbum: um hino ao suicídio, através da dor, melancolia, depressão, ódio, raiva e negatividade em geral. São guturais rasgantes (a lembrar os de Varg nos primórdios mas ainda mais arrepiantes), autênticos calafrios na espinha devido à sua grotesca beleza. As vocalizações não são parte constante das faixas, mas quando surgem, são momentos incríveis e que completam ainda mais o álbum, tornando-o ainda numa maior obra-prima do que já seria, caso fosse puramente instrumental. Aliás, a voz de Malefic é algo incrível de ouvir, seja em projectos tão bizarros como Sunn O))) ou juntando-se a membros de Nachtmystium para interpretar um tema do álbum de Twilight, numa das suas raras incursões ao vivo

O álbum tem uma duração invulgar para um lançamento do género, ultrapassando os setenta e nove minutos, apesar de apenas serem oito músicas. Tal também se entende, pois é suposto ser ouvido como um todo. O que se compreende ainda mais do que o habitual em álbuns longos porque a variedade, entre e no seio de cada música, é muito grande e quando ouvido com atenção (repito, não é um álbum fácil de entender, nem de audição leve) prende o ouvinte pelo mundo distorcido criado por Malefic.
É possível destacar momentos de magistral negritude, mas se não ouvido como um todo, perde-se boa parte da magia de 'Nocturnal Poisoning'.

Falo logo da abertura, In The Hate Of Battle, com variações de ritmo frequentes e alguns dos mais agonizantes riffs do álbum. As vocalizações são, como em todo o álbum, tenebrosas, tornando o primeiro impacto do álbum, uma faixa representativa do trabalho, mas igualmente num hino de Black Metal depressivo, como só Xasthur pode produzir. Liricamente, o projecto é imperceptível sem as letras ao lado (e mesmo assim é complicado), mas está em perfeita consonância com a música a deambular entre os temas suicidas, desesperantes e/ou místicos. Neste caso, prende-se com o puro ódio:

Hatred bled onto the soul
With a fury to kill
Killed brethren
Without respect for lives unholy
A hatred possessing my soul
With a fury to kill


A homenagem a Mütiilation com Black Imperial Blood mostra bem uma das influências da banda e apesar de estar fiel ao original, é uma interpretação bem "xasthuriana" de uma das grandes faixas produzidas por Meyhna'ch no enorme 'Vampires Of Black Imperial Blood'.

Por fim, destacar a última música, apenas com sintetizadores, fazendo lembrar muito 'Hliðskjálf'. Forgotten Depths Of Nowhere faz jus ao nome e em jeito de despedida, lembra uma marcha fúnebre, onde já nem a dor ou tristeza têm lugar, simplesmente o vazio...

Pouco mais há a dizer, senão que 'Nocturnal Poisoning' é uma autêntica opus misantrópica e suicida, uma viagem pela dimensão conturbada criada por Malefic, dimensão essa onde a agonia sufocante e a desolação eterna formam paisagens repetidas indefinidamente.

Conclusão
Xasthur é um projecto único, de uma mente única e pessoalmente, todo o conceito do projecto me diz muito. Depois do álbum de estreia lançou outras grandes obras. No entanto, a nível de intensidade, talvez nunca tenha igualado 'Nocturnal Poisoning'. Não é fácil. Considero o álbum que agora acabo de descrever como um dos melhores alguma vez criados dentro do Black Metal (embora Xasthur "ultrapasse" não raras vezes, o estilo, musicalmente falando). Depois de Burzum não me lembro de algo tão fabuloso como o álbum de estreia de Xasthur.

Essencial para quem compreenda (ou queira compreender) os caminhos mais negros da mente humana, ou simplesmente para findar a própria existência.

PhiLiz

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Bizarra Locomotiva - Ódio

Bizarra Locomotiva - Ódio
Introdução
Os mais brilhantes representantes da cena mais pesada de Industrial em Portugal, ultrapassam qualquer contexto em que possam ser inseridos devido à pura vandalização sonora imprimida em qualquer dos seus trabalhos. Os Bizarra Locomotiva apresentam-se como o nome indica, máquina bizarra de contornos grotescos e assassinos para os ouvidos comuns. Com uma frenética energia em estúdio, os Bizarra atingem toda a sua potencialidade ao vivo, com espectáculos absolutamente arrebatadores, onde cada sílaba é demonstração de puro ódio e fúria. Neste campo poucos os conseguirão igualar no nosso país.

Baseados no Industrial de características bem "metálicas", a banda de Rui Sidónio & Ca. apresenta-se acima de tudo como uma agressão. Nada em BL é belo, conforme, habitual... nada na mistura selvagem da banda está dentro dos padrões habituais (o facto de cantarem em Português tem um significado enorme, mas também representa uma quebra do que costuma ser a regra no género), formando uma simbiose de niilismo musical e pura brutalidade.

Ódio é um nome directo ao que a banda tenta transmitir esta proposta de 2004. Não se vislumbra nada bonito ou calmo... aqui tudo é grotesco... e é isso que torna BL tão espectacular.



Alinhamento
01 - Gárgula
02 - Buraco Negro
03 - Fantasma
04 - Desgraçado De Bordo
05 - O Frio
06 - Usina
07 - Pedinte
08 - Moscas
09 - Tráfico De Órgãos
10 - Coisa Morta
11 - Mordo
12 - Ódio
13 - O Regresso

Ano 2004

Editora MetroDiscos

Faixa Favorita 10 - Coisa Morta

Género Industrial

País Portugal

Banda
BJ - Máquinas
Miguel Fonseca - Guitarra
Rui Berton - Bateria
Rui Sidónio - Voz



Review
Ódio apresenta-se em primeiro lugar como um álbum bastante mais directo e pesado do que o seu sucessor, o conceptual Homem Máquina, momento mais experimental da banda. Aliás, Ódio é o primeiro álbum "não-conceptual" desde Bestiário, o que representa por si só uma mudança.
No entanto, a maior mudança ocorrida no seio da banda, foi a saída do compositor principal e fundador, Armando Teixeira (que entre muitos projectos pertenceu aos... Da Weasel) que abandonou a banda após Homem Máquina.

As dúvidas em relação à direcção da banda eram muitas, mas assim que se ouve Rui Sidónio com uma acidez venenosa a proclamar: Ela riu-se para mim com aquela boca mortiça... - percebe-se que a brutalidade e a violência estão de volta e substituem o experimentalismo...

Apesar de mais violento, agressivo e acima de tudo com uma carga negativa megalómana (no melhor sentido), o álbum não se torna menos interessante ou fácil de digerir. As letras perturbantes, niilistas e bizarras de Rui Sidónio são um dos principais factores deste renovado poder da banda. Tudo o resto está em consonância: se a voz é gutural e as letras morféticas, toda a máquina é poderosa, maquiavélica e com o único objectivo de se tornar uma autêntica dilaceradora para todos os tímpanos com que se cruze.

A entrada do guitarrista Miguel Fonseca (conhecido de várias bandas nacionais, incluindo os grandes Thormenthor, nome grande do Death Metal português no início dos anos 90), pelas suas influências óbvias foi certamente um dos grandes responsáveis pelo regresso à brutalidade em doses industriais que a banda apresenta em Ódio. Com riffs inflamados, com uma melodia peculiar (ouça-se "O Frio"), o guitarrista assumiu ainda o papel de compositor principal e diga-se de passagem que este "regresso às origens" da banda deve-se em muito a este facto (o que não deixa de ser irónico devido a ser um membro novo).

Uma outra figura incontornável da banda é o responsável pela dita maquinaria, BJ, também responsável pelos "back vocals" e que assume uma dimensão ainda maior ao vivo, onde é uma figura "sui generis" devido à sua tresloucada presença em palco. Neste trabalho BJ, bem como a bateria de Rui Berton apresentam-se como o coração da máquina, contribuindo para todo o caos que invade o álbum.

Todo o álbum está pulverizado de metáforas infectadas que lidam com decadência, niilismo, situações de completo nojo e claro, ódio. As letras de Sidónio são directas e bem explícitas, mas no seu todo transmitem uma mensagem inteligentemente destrutiva. Não é poesia bela e profunda, é um liricismo rasgante e fracturante, onde o grotesco e o putrefacto assumem um papel preponderante na banda. Aliás, para além das letras, a é verdade que Bizarra Locomotiva não poderia ter um vocalista diferente. Em gutural e cuspindo agressão, Rui Sidónio é provavelmente a marca mais distinta da banda (mesmo ao vivo onde todos os cenários à volta da banda são peculiares) e que em Ódio é um dos responsáveis pelo sentimento que o nome do álbum indica.
Para a mensagem passar bem a produção é clara e bem conseguida, tornando a experiência auditiva mais cristalina... mas para se pode ouvir correctamente a barulhenta máquina!

Não sendo um álbum conceptual, os temas das músicas apresentam semelhanças, sendo que a originalidade das letras não deixa que estas se tornem de forma alguma menos interessantes.
O álbum apresenta um autêntico desfilar de músicas frenéticas e massacrantes, como é o caso da trilogia, Buraco Negro, Fantasma e Desgraçado De Bordo, esta última que para além de ser uma das mais bem conseguídas faixas do álbum apresenta um tom niilista que se saúda:

Desgraçado de bordo
Recusou as oferendas
Recusou a moral
Recusou a vida


Outro dos momentos altos do álbum está no genial Frio, com os riffs melódicos e uma áurea misteriosa, bem como a genial letra fazem desta faixa uma das melhores músicas de toda a carreira de Bizarra. Ao vivo, a música assume uma genialidade ainda maior, com a encenação teatral de Rui Sidónio e BJ, resultando sempre num dos momentos alto dos concertos.

O tom de raiva em Pedinte (ao qual "só os malditos acodem") integra-se com um sentimento quasi-misantrópico que a música apresenta. Apesar de mais experimental mantém a grande intensidade. Numa linha lírica paralela temos Moscas, com mais putrefacção ainda. A letra revela sentimentos de ódio para com o próprio ser (numa possível alegoria entre moscas e o próprio homem) e algumas das suas características...

O meu desgosto é profundo
Sinto-me a mais neste mundo
O meu cheiro é nojento
E no meu ventre o lamento


Após mais um momento de respiração em Tráfico De Orgãos, segue-se a melhor música do álbum. Coisa Morta trata-se de uma faixa com ritmos palpitantes, letra macabra e acima de tudo de grande genialidade. O refrão assume o papel de um constante martelar, não só pela voz, mas através da máquina infernal que faz questão de demonstrar toda a sua fúria.

Coisa morta
Lembras-me quem sou
Coisa morta
Lembras-me o que sou


Por último, destaque para Mordo e a faixa-título, três minutos sem qualquer contemplação e de puro ódio (e neste caso no sentido mais literal possível) e de com o ritmo a acelerar consideravelmente.

O folgo é pouco no fim dos quase quarenta e cinco minutos, sobrando o sangue que jorra dos ouvidos de quem aguentou o massacre sonoro de Ódio.

Conclusão
Bizarra Locomotiva e este álbum em particular, não são de todo uma acessíveis. No espectro do Industrial a banda apresenta elementos violentos e poderosos (a associação ao Metal é inevitável), sendo que por outro lado os elementos electrónicos pode afastar quem está mais habituado a sonoridades pesadas. Como se não bastasse as vozes guturais não são propriamente dos elementos mais fáceis de assimilar...

Mas são precisamente estas características únicas que tornam a banda numa das mais criativas, inventivas e geniais produções portuguesas. Ódio dá uma prova de maturidade e força (odiosa saiba-se!) e prova que o estatuto de melhor banda nacional do estilo é inegável.

PhiLiz

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Mortifera - Vastiia Tenebrd Mortifera

Mortifera - Vastiia Tenebrd Mortifera

Introdução
Bem antes de todo o barulho feito à volta de alguns projectos da mente criativa que se dá a conhecer como Neige (falo claro de Peste Noire, Amesoeurs e claro, Alcest), a junção de esforços entre duas das mais proeminentes figuras do Black Metal francês pós-LLN (embora Noktu tenha uma pequena conexão com este último movimento) resultou numa obra-prima melancólica, depressiva e incomensuravelmente bela.

Ao contrário dos já mencionados projectos ambientais de Neige, ou das participações de Noktu em álbuns mais virados para o Black Metal tradicional (a malograda colaboração luso-francesa de Genocide Kommando ou Gestapo 666), este álbum de Mortifera tem parecenças enormes com o principal projecto de Noktu, isto é, Celestia. Aliás, a última música é, inclusive uma cover de Celestia. Musicalmente as parecenças são mais que muitas, mas Mortifera surge menos raw e talvez um pouco menos agressivo, sendo mais melancólico e genuinamente triste.

Tratando-se desde logo e um álbum de Black Metal, 'Vastiia Tenebrd Mortifera' surge como um álbum que passa de maneira genial toda a áurea de mistério, tristeza e desesperante que está bem patente nos poemas de um dos mais brilhantes poetas franceses de sempre, falo de Charles Baudelaire. As duas melhores faixas são de resto a "banda sonora" de dois excertos das famosas "Fleurs Du Mal", a mais conhecida obra de Baudelaire.

Este é apenas mais um factor de interesse, num álbum onde tudo se movimenta de forma brilhante entre o Black Metal, a literatura, o mistério e acima de tudo a melancolia.

http://img258.imageshack.us/img258/7056/mortiferavastiiatenebrdvl6.jpg

Alinhamento
01 - Fbrahgments
02 - Le Revenant
03 - A Last Breath Before Extinction
04 - Epilogue D'Une Existence De Cryssthal
05 - Ciel Brouille
06 - Abstrbve Negabvtiyon Rebssurectyion
07 - Aux Confins Des Tenebrss
08 - Fruits Of A Tragic End

Ano 2004

Editora GoatowaRex

Faixa Favorita 05 - Ciel Brouille

Género (Depressive) Black Metal

País França

Banda
Neige - Baixo, Bateria, Guitarra, Voz
Sir Noktu Geiistmortt - Baixo, Bateria, Guitarra, Voz



Review
'Vastiia Tenebrd Mortifera' é uma das mais geniais obras de Black Metal que alguma vez ouvi. Isto é preciso ficar bem claro, uma vez que influencia toda a minha visão global do álbum.

A dupla Neige/Noktu exibem toda um conjunto de emoções num quadro negro e sem qualquer tonalidade que pinte a esperança. O sentimento melancólico assume uma importância central neste álbum de Mortifera, no sentido que ele é elo de ligação dos dois maiores pólos que envolve o álbum: Literatura e Black Metal. Tudo o que sai dos instrumentos emana tristeza, melancolia, ódio, desespero, somando tudo: sentimento. É um álbum vincado por estes mesmos factores e precisamente por este motivo se torna uma obra que toca aspectos que são raramente abordados, mesmo num género como o Black Metal.

Como não podia deixar de ser, a voz é o elemento mais fácil de entender enquanto forma de expressão. Fá-lo de maneira brilhante: em gutural, mas com autênticos gritos de dor e angústia. A tortura que mergulha tudo na total tristeza e desolação. Ambos os compositores do álbum assumem a posição de vocalista.
A voz em Mortifera é um dos elementos mais singulares do projecto. Ora cheia de ódio, ora na representação quase dramática dos poemas de Boudelaire - Ciel Brouille, clímax do álbum é a representação máxima deste aspecto -, a voz trata-se de algo quase persecutório, na eterna lembrança da dor e melancolia que o álbum carrega.

Acompanhando isto, temos as guitarras, num movimento conjunto com as vocalizações. Guitarras com distorção acentuada, com alguns momentos acústicos (ou semi-acústicos pelo menos) e riffs dolorosos, que resultam em espasmos sonoros da maior beleza.
É de resto este, um dos pontos de interesse do álbum a nível emocional, porque apesar da melancolia dominante, Mortifera, invade acima de tudo com o belo, numa simbiose brilhante que nos poderá levar a concluir, que em 'Vastiia Tenebrd Mortifera' se leva ao expoente máximo, tudo o que é tristemente belo.

Incrivelmente, o baixo, em consonância com tudo o resto já mencionado, representa um instrumento de negritude. Não raras vezes surge de forma importante como em Le Revenant ou A Last Breath Before Extinction. Quanto à bateria, é (quase) sempre executada a mid-tempo, tal como de resto, todo o álbum se apresenta.

Falando de todas as enormes faixas aqui presentes é preciso destacar que não existe uma única abaixo do nível altíssimo do álbum, mas há momentos memoráveis e que pela sua beleza imensa abrilhantam ainda mais este enorme trabalho. Abrimos com Fbrahgments, uma introdução instrumental, mas já bastante dentro daquilo que o álbum oferece, ou seja, uma áurea negra e melancólica.

Após este momento, somos presentados com Le Revenant, a primeira grande faixa do álbum. Baseado no poema de Boudelaire com o mesmo nome (que significa "O Fantasma" e está presente em "Les Fleurs Du Mal"), apresenta-nos uma combinação de riffs distorcidos e melancólicos (o primeiro é especialmente soturno), juntamente com um envolvimento misterioso e uma lírica tortuosamente interpretada, mantendo toda a sua enigmática beleza. Aqui podem encontrar a tradução e deixo igualmente o poema original e por inteiro em Francês:

Comme les anges à l'œil fauve,
Je reviendrai dans ton alcôve
Et vers toi glisserai sans bruit
Avec les ombres de la nuit,

Et je te donnerai, ma brune,
Des baisers froids comme la lune
Et des caresses de serpent
Autour d'une fosse rampant.

Quand viendra le matin livide,
Tu trouveras ma place vide,
Où jusqu'au soir il fera froid.

Comme d'autres par la tendresse,
Sur ta vie et sur ta jeunesse,
Moi, je veux régner par l'effroi.


Partimos então para um momento completamente suicida, refiro-me à terceira faixa, A Last Breath Before Extinction. O gutural é mais profundo, com uma dor mais visceral a ser representada, mas os riffs continuam na sua toada melancólica e sufocantemente triste. A força da composição é apenas interrompida perto por um momento acústico, onde os lamentos de uma alma torturada e prestes a extinguir-se dão um final apropriado a tão angustiante existência.

Seguirmos com um momento acústico e instrumental em Epilogue D'Une Existence De Cryssthal, antes da opus das opus do álbum: Ciel Brouille (que se pode traduzir de grosso modo em "Céu Turbulento"). A segunda e última faixa baseada num poema de Boudelaire, é o momento mais singular de todo o álbum e também o mais brilhante. Desde o primeiro riff melancólico, acompanhado por todos os outros instrumentos, até à voz que se apresenta mais triste do que nunca, tudo é perfeito. Uma interpretação negra, muito negra, de um interrogativo e enigmático poema do autor francês. A última secção da música assume tons quase de loucura... com a voz a transformar-se apenas num meio transmissor de toda a explosão de emoções que dela emana. Brilhante e belo, muito belo. Vale a pena constatar a beleza lírica da música, seja na sua versão traduzida para Inglês ou na versão original que deixo também aqui:

On dirait ton regard d'une vapeur couvert ;
Ton œil mystérieux, — est-il bleu, gris ou vert ? —
Alternativement tendre, doux et cruel,
Réfléchit l'indolence et la pâleur du ciel.

Tu rappelles ces jours blancs, tièdes et voilés,
Qui font se fondre en pleurs les cœurs ensorcelés,
Quand, agités d'un mal inconnu qui les tord,
Les nerfs trop éveillés raillent l'esprit qui dort.

Tu ressembles parfois à ces beaux horizons
Qu'allument les soleils des brumeuses saisons ;
— Comme tu resplendis, paysage mouillé
Qu'enflamment les rayons tombant d'un ciel brouillé !

O femme dangereuse ! ô séduisants climats !
Adorerai-je aussi ta neige et vos frimas,
Et saurai-je tirer de l'implacable hiver
Des plaisirs plus aigus que la glace et le fer ?


Após este momento tão extraordinário, a última parte do álbum é igualmente bela. Abstrbve Negabvtiyon Rebssurectyion e Aux Confins Des Tenebrss são duas músicas brilhantes, cada uma de forma diferente. Enquanto que a primeira, das faixas mencionadas, é uma dolorosa passagem, com um gutural sofredor por entre o som depressivo, a penúltima faixa do álbum apresenta-se como uma peça acústica, com a sua quietude quebrada apenas pelos gritos de dor no seu final.

Esta obra-prima termina com a cover de Celestia, fiel ao original, mas numa toada mais lenta e com os vocais mais condizentes com este projecto. O mesmo será dizer que é mais um momento negro e triste, tal como é de resto todo o clima do álbum.

Conclusão
Vastiia Tenebrd Mortifera representa uma das mais brilhantes obras de Black Metal do século XXI. Dos climas mais extraordinariamente melancólicos, com uma atmosfera intensa do género e acima de tudo, com uma genial interpretação de sentimentos por parte dos membros do projecto, sendo que neste último aspecto dificilmente se encontra álbum tão magnífico.

Não se deverá deixar que os últimos projectos de Neige evoquem uma percepção antecipada do que aqui se encontra. Trata-se de um álbum triste e melancólico, mas acima de tudo, uma obra-prima de Black Metal.

PhiLiz

domingo, 19 de outubro de 2008

Só acredito



A minha presença aqui tem se tornado ténue, ligeira como uma tímida brisa matinal. Dentro de mim pressinto o porquê. A razão pela qual é tudo tão difuso. As árvores e a própria terra dissolvem-se no meu olhar como que a fazerem-me sentir a realidade.

O facto é que ainda não acredito, é tudo tão distante, tão doce e gentil que não consigo evitar entregá-lo a alguma mitologia perdida com pouco interesse, não é sequer para mim. Eu ainda estou longe, ou penso que estou longe. Se calhar a única forma de me sentir confortável é pensar isso mesmo. A distância desresponsabiliza-me, afasta-me e protege-me de desaventuras desnecessárias. Assim posso continuar a falar alegramente das minhas metas e sonhos, o tanto que me falta mas o que estou disposto a dar e a render por eles. Entretanto pego numa chávena de chá verde, leio um outro livro de história ou filosófo sobre o Japão moderno. São essas pequenas coisas que me faziam sorrir para o futuro... "Quando ele chegar farei isto ou aquilo. Irei aqui ou acolá".

Não consigo evitar ver tudo assim até ao momento que entrar no avião, quiçá chegar a Tokyo. É algo que sempre fiz. O horizonte sempre esteve lá para me confortar. Quer nas alturas em que desesperava quer em outras nas quais sonhava mais longe. Agora a terra torna-se plana, o horizonte desvanece-se. Era isso que me queriam mostrar as tais arvores e o solo da minha Pátria.
Entro agora num novo caminho, com novos desafios, alegrias e tristezas e no entanto nunca esquecerei as pedras que calcorreei, o próprio cheiro da poeira já faz e sempre fará parte de mim.

Diogo Santos aka Kyon

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Fios de Desespero

O pouco de mim que sobra, aqueles murmúrios do que fui silenciam-se pouco a pouco. É como que o desligar de um motor mecânico poderoso. Ao fulgor inicial segue-se um vazio silêncio. Perguntam-se as gentes, para onde foi tal poder? Tal vontade de existir? É simples e complexo, foi sugado pela própria existência. Um buraco negro invisível violou a minha essência. Devagar e sub-repticiamente sugou-me o bem estar… depois a esperança… lentamente arrancou-me a vontade e agora, estripa-me do meu bem mais valioso, a minha razão a qual guardo no fundo da alma.

No entanto não se pode contrariar esta cruel gravidade existencial, ela é pura e simplesmente. Não se compadece de ninguém, sou simplesmente uma circunstância no local errado. Um infeliz que alegre e inconscientemente sonhava um futuro mais brilhante. Sonhava saber mais, sonhava viver mais, sonhava amar mais. Se mereço ou não tudo isto, não sei. No fundo nem é isso que está em causa, ninguém pode ver nos meus estilhaços dignidade suficiente para sequer se questionarem.

Então, no meio do vácuo olho para o meu passado. Para os erros que fiz, para os que poderia ter feito. Olho para as coisas em que me orgulho e para os momentos que passei com os meus mais queridos amigos. Vejo-me a mim a sorrir, feliz e íntegro. Ciente do que sou e do que quero. Não posso deixar de desesperar face a essa imagem. Tão contrastante ela é com o eu de hoje. Esmagado e ridículo. É o fim de um velho e nobre império, que nada mais tem agora a não ser existência física.

Cruelmente antes de cessar poderá ver e tocar o que o futuro lhe teria reservado. Quer no saber, quer no viver, quer no amor. No fim tudo o que fica são silenciosos gritantes fios de desespero que se acumulam numa malha já apertada.


Diogo Santos aka Kyon

Dreamed Exhaustion

Andando ao longo da estrada vi muitas coisas, vi cores, vi sabores, até talvez ilusões… mas acima de tudo vi o meu futuro. Vi um mundo no qual me sentiria confortável e feliz. Então, naturalmente, persegui essa imagem persistentemente. Não interessava a sede nem a fome, não via nada mais a não ser o mecânico movimento dos meus passos. Um, dois, um, dois. Aquele sonho que procurava tocar ia se tornando mais sólido, os seus contornos iam-se especificando. Um sorriso foi então depositado nos meus lábios. Era isto mesmo, era aqui que queria chegar, era isto que seria o propósito da minha existência. A sua agora solidez reconfortou a minha alma (e pés cansados diga-se), levantei a cabeça.
Estava tudo ali, tudo ao meu alcance só tinha de fazer um último e derradeiro esforço.

Então tudo se tornou surreal, a minha cabeça começou-me a pesar, os braços e pernas não me obedeciam. A minha própria razão, baluarte da minha existência jazia em ruínas. As lágrimas que eu queria chorar com o corpo jazido na poeira não saiam. Até os meus sentimentos me roubavam, olhei desesperado em volta. Que iria eu fazer? Tão perto e tão longe? Arrastei-me então decadentemente milímetro a milímetro, mesmo sabendo que não chegaria ao meu destino. Tudo se estilhaçou, e eu deixei-me esvanecer no nada que sou… Consciente unicamente daquilo que não atingi.

Diogo Santos aka Kyon 17 de Outubro de 2008

domingo, 5 de outubro de 2008

Mensagem ao Leitor





Como muitos de vocês saberão (e os outros passam a saber) vou concretizar o meu sonho de visitar o Japão. Dia 20 às 12.25 entrarei no avião que me levará até Frankfurt, e de lá finalmente para Tokyo. Fico extremamente feliz que os meus esforços para ser o seleccionado deste ano na iniciativa da embaixada tenham sido recompensados e espero poder corresponder às expectativas das pessoas que em mim depositaram esta oportunidade .

É certo que apesar de não negar o mérito que tive no processo, muitas pessoas ajudaram-me ao longo da extenuante estrada que culminou na minha selecção. Desde já deixo aqui o agradecimento a essas pessoas. Thierry, Professora Toda, Pedro, Ana, Tiago e perdoem-me se me estou a esquecer de alguém, muito obrigado. No momento em que pela primeira vez pisar solo japonês prometo que vos carregarei no coração.

Impossível para mim de descrever o quão importante será esta viagem para alguém que tem atravessado um momento extremamente sombrio, diria até obscuro. Com muito pesar digo que o meu estado de espírito e estado de saúde deixam um pouco a desejar. Por isso mesmo, a esperança que tudo isto faz nascer em mim não tem sequer classificação possível. É como que uma benção terrena no limiar da divinização.

No entanto, não posso deixar de frisar a angústia que sinto por não poder percepcionar tudo o que que me percorrerá no meu estado mais puro, ou seja no auge da minha capacidade intelectual. Sinto que perderei coisas que nunca recuperarei na vida, coisas que me estão a ser roubadas de forma injusta e tenebrosa. A primeira vez que consigo tocar o meu destino... tinha todo o direito que ela fosse o mais brilhante e inultrapassável que pudesse imaginar. Apesar de tudo vejo-me privado... Enfim, repito para mim que podem ser estes próximos quinze dias que marcarão a escalada da minha recuperação, talvez a vida me tenha guardado uma surpresa...

Convém dizer que o Japão transmite as suas próprias noções e vicissitudes por veículos estranhos aos usuais mecanismos que conhecemos. O suporte intelectual é ultrapassado muitas vezes pelo próprio beber da representação essencial pela alma. Essa vertente nada deste mundo a pode minimizar, ela vale por si própria e é assim que a abraçarei. Ou seja, a essência de tudo não a perderei... aconteça o que acontecer.

Bom, este post já se alonga mais do que quereria por isso agora vou directo ao assunto, o propósito último de toda esta conversa é referir que nos dez dias que permanecerei no país do sol nascente parilharei aquilo que viverei e sentirei com as palavras que escrever aqui. Ao longo de dez dias tentarei que essas mesmas palavras sejam mecanismos simbólicos fortes o suficiente para fazer tudo transbordar no estado mais puro possível. Espero que apreciem o que aqui relatar e sejam envolvidos o mais possível terrena e espiritualmente no meu testemunho.

Obrigado

Diogo Santos aka Kyon

PS:

Stop Go Tokyo

video

domingo, 21 de setembro de 2008

A descaracterização do pós-modernismo juvenil japonês




Quando um ocidental pensa no Japão tradicional diversas imagens afluem à sua imaginação. Entre elas contam-se cerejeiras resplandecentes, jardins calmos, pessoas contidas e cientes da sua existência comunitárias, e outras mais. Os conceitos donde nascem estas noções práticas podem-se referir como aquilo que deu ao Japão a continuidade da sua modernidade.

De facto, a coesão comunitária, um esteticismo existencial único e a noção do valor do trabalho, mesmo não sendo constatadas tão ancestralmente quanto isso (a primeira e a terceira são respectivamente heranças nascidas quer na época Tokugawa quer no período Meiji) deram ao Japão a capacidade de se projectar no século vinte como uma das nações mais desenvolvidas do mundo. Problemas como a criminalidade urbana, descaracterização cultural e o materialismo extremo, ligados à própria noção ocidental de modernidade como inevitabilidades, ficaram muito aquém do que seria esperado. Isto foi motivo de orgulho para o povo japonês. Aliás, apesar de hoje em dia esse fosso ter diminuído, o Japão continua impreterivelmente a ser um país no qual essas questões não estão tão agudizadas como em outras paragens.

No entanto, é inegável que nas grandes cidades começam a surgir exponencialmente realidades que eram descartadas como externas ao padrão da modernidade japonesa. Convém então perguntar, o que mudou nos últimos anos no Japão para que esta deterioração se torna cada vez mais acutilante?

A resposta não é simples, e muito menos é unilateral. Para a confirmar, claro, é preciso um estudo empírico apropriado. No entanto penso ter segurança para avançar com uma avaliação teórica da questão.

A norma do desenvolvimento japonês mudou substancialmente nos anos noventa, ou melhor, começou a ter repercussões preocupantes na sociedade civil. O trabalho que longas horas ocupava os chefes de família e cada vez mais também se fazia notar nas mães, acabou por fragilizar a unidade familiar. Em consequência disso as primeiras brechas na coesão comunitária fizeram-se notar.

Há que ter em conta nas consequências deste aumento da fragilidade dos lares que as vítimas principais são os filhos da classe média nas grandes cidades. “Libertos” da fonte de regras e formação cívica que era a existência familiar procuraram um modelo noutras paragens. Ou seja, foram lançados na sociedade sem a mínima noção de valores ou princípios que a regiam, com uma auto-estima por afirmar. O amor dos pais foi substituído pelo dinheiro que lhes podiam fornecer, como compensação inócua da sua ausência.

É neste ponto que se poderia referir: “Muito bem, mesmo sendo isso verdade poder-se-ia dizer que os padrões educacionais na escola e nos tecidos sociais comunitários mantiveram-se. Não seria suficiente para arrasar tudo o que o país tinha como garantia colectiva.

Isto não é totalmente correcto, pode-se dizer que a manutenção das estruturas educativas com o seu valor formativo adiou a destruição do que era a antiga concepção de sociedade nestes indivíduos. Apesar de se sentirem ligados por instituições como a escola ao mundo adulto, sendo estas o espelho dos valores e hábitos vigentes, os jovens têm tendência a identificar-se principalmente entre si.

Aqui percebe-se o porquê do alargar progressivo do problema inicial. A ocidentalização no que toca à sociedade pós moderna japonesa era (e é) cavalgante, cada vez mais se vivia o individualismo e consumismo ocidentais, sendo a única restrição aos mesmos os valores comunitários. Estando os pais ausentes, a formação juvenil orbitou de volta desta fascinante e colorida nova forma de afirmação colectiva. As pirâmides sociais foram-se desconstruindo e reorganizando, para além do mais a permissiva lei japonesa, pouco habituada a estas questões, respondia insuficientemente aos caos subsequente.

Fragilizado o comunitarismo original, a educação no lar, e com a exposição a uma existência desregrada com poucas barreiras legais os problemas sucederam-se. Prostituição de menores, discriminação económica nos jovens, uso de drogas, facilitismo sexual, destruição da noção de dever e do mérito escolar entre outros.

Estatuo a hipótese, então, de as duas causas principais terem repercussão conjunta como a origem dos problemas correntes no país. É certo que mesmo expostos ao consumo e à cultura “MTV” se os jovens tivessem um sistema de valores anterior estatuído não teriam tais comportamentos (como se pode constatar em cidades de médio tamanho no interior e costa do mar da China). Também é verdade que se esses estímulos não estivessem presentes mesmo a falta de existência comunitária não seria tão nefasta.

A questão central é a existência conjunta das duas circunstâncias. Claro que há outras razões que acentuam o problema, o crescimento das cidades tem sempre inerente um determinado nível de anonimato e alojam sempre pessoas com tendências diferentes da regra. Há que ter isso também em conta.

Como finalização pode-se dizer porém que nem tudo é mau, o anonimato social é também fonte de criatividade, algo que o Japão sempre tem tido falta. A espontaneidade individual fez de cidades como Tóquio um pólo atractivo para fãs das subculturas muito próprias, que resultaram desta existência livre e desregrada. É humano sentir-se atraído a toda essa ebulição existencial. Não se pode, mesmo assim, nunca esquecer, qual é o preço que se está a pagar para ter o fulgor desta nova existência, ver se há ou não coisas que não deveriam ser esquecidas a sê-lo.

A moderação tradicional da existência japonesa está a ser posta em causa. Com ela a validade colectiva que o país se orgulha. É disso que se trata. E a classe política terá de ter em atenção estas vicissitudes ou perderá a noção do povo que está a governar, talvez se estivesse menos ocupada “internamente” pudesse dar mais atenção a este género de questões.